sábado, 16 de agosto de 2014

chave

como fosse uma arca
o menino me abre
tem chave sutil
tem tranca sutil
como fosse um baú
uma caixa marrom
uma cavalo de tróia
como se fosse uma arca
o menino tem chave
uma chave sutil
que dá chuva
nuvem de inseto
e estrela, lá longe
lá reta... no zênite
no eixo, navegante quieta
chave indireta, aberto
boneco de barro
de cera, de elo
boneca de estrela
de elo, de cera

2013

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

errante

burra e tola
me empurra a rôla
tudo o que rola
me emburra

emburrada me enraba
o jumento
e não acaba

transa sem acabamento
parando no andamento
adia adiamento
adiantado

no cabo me acabo
não dá cabo de se acabar
acaba à disseminar
e fica entregue
o jegue

sem cabresto nem cabimento
restrito o sortimento
e dentro tudo à embolar

penso que pensa outra
e o pensamento me tira
de onde devia estar

terça-feira, 29 de julho de 2014

fenix

barco de mudança
desenlaça a dança
calma e respiro
                 [de aceitação da sina
tecendo amor da sina

José nascido, Félix velho
de cento e dez anos
avô da lua

menina sem nome
 com nome deles
eu renascendo interna
respirando as águas

o que me aconselha o espírito


A. Mahin
Recife, julho de 2014

clamor inocente

parceiro, lambe meus seios
deixe de seus arrudeios
me arrudeie as curvas

latejam as vulvas
todas vulvas
na penugem das luvas
das chuvas das noivas

parceiro, aceito
teu direito e território
pau santo no oratório
devoto

devo devorar com ganas
os músculos da semana
conduzidos na pressão

dispensar mente
aguar semente
perdoar serpente
sem condição

parceiro, amarrado rabo
montando com segurança
e sem pressa

tua presa na minha nuca
presa selvagem confusa
tragada entrega
trégua

era vidro

mergulhei a mão na bacia sanitária pra apanhar o brinco de pérola
mas a tarraxa se perdeu no chão
desfez-se o elo do brinco
a orelha lisa canta o buraco livre
a orelha sem o pino de ferro

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

*) entre mar e lua

(às parceiras marina e luciana)

sou esse farol atravessado
entre a mutante lua
e a marina nua.
água bravia movida.

sou essa luz humana
conduzida, com sentido de porto,
busca, barca, balça, jangada.
alma embalada,
conduzida.

sou esse entre, luz menos que a lua,
mas quando se põe escondida
sou arranjo de luz nascente
à terra obscurecida.

entre as duas, sou esse ponto vago
e fixo. farol claro de encontro
da noite com o chegar.
do barco de embarcar.

na casa da mãe de arreia
graça, canção e sereia;
aquela que vem do mar.

domingo, 11 de agosto de 2013

al eu



aqui nem chove nem molha
como pai que só tem no cartório
ou nem.
aqui tempo paradão
cachorro preto acuou na porta
era matilha de rua
alcatéia de lobo urb
coleira até.
eu quase não saio...
eu quase
eu.
uivo ruivo violado
viola vila vilão
plebéia da eucatéia.

no correr da luta.

sábado, 27 de julho de 2013

# divergente diversa



Meu verso se dissipou
Discipulado avesso
Diverso e delgado
Verso delegado
A toga

Verve do verde
Verso voraz avessado
Tempo de diluir a pedra
Tempo de construir iglu

Tempo inverso
Verso de cobertura
De bolo, de jejum
Dividida dúvida
Dar de vida

Tempo de ser ouvida
Por mim

Verso de casa
Fogão, morada
Caverna avessa
Estrada interna

Tempo voz de aquietar
De caminho síntese
De planta proteica
Raiz plena

Templo mãos de limpar
O excesso pra acesso
Do disperso desempeço
Foco de centro ingresso

 Chão da terra
Pele boa

Tempo de acalentar matéria
Disciplina, cadeira, assentar
Mediação de inverno
Recolher os gravetos
do fogo

Tempo de consertar os canos
Síntese dos anos, luz

domingo, 16 de junho de 2013

rês suscita

Quero que o menino viva
com todo viva da gente
feito ser onipresente
deus humano e renascido

Consciente agradecido
luar reluz de repente
mês de junho referente
do milho melhor nutrido

Que seja semente rara
plantada na terra cara
abundante de amor

Que cresça com tao cuidado
pelo céu abençoado
grato lótus refrator

Que se enxergue essa luz
branca luz de toda cor
Observe o que conduz
e a que mares induz
o cuidado acolhedor

E sempre lembra, menino
do auto amor que se pede
do alto amor que se tem

Nunca te esquece, menino,
que a dor faz parte da graça
e sempre que rompe a casca
força infinita vem.







quinta-feira, 22 de novembro de 2012

cruz

quero matar o menino
com espada reluzente
vermelhar a terra quente
no caminho da igreja
quero matar o menino
ou qualquer cristão que seja

quero matar o menino
quero morrê-lo de dente
arrancá-lo do presente
enterrá-lo em minha fé
quero matá-lo e axé!

morre menino
morre menino me morre
sangra menino
sangra menino me sangra


gné da selva
20.11.12

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

quadras


(Quadras construídas em função da abertura da apresentação do texto “O médico volante” de Molière, 30 e 31 de maio de 2011, no Centro Cultural Correios, direção de Lívia Falcão).


Chegamos trazendo a festa
A farsa e os folgazões
As trovas, a alegria
A comédia e as canções

Polichinelos saltados
Saltimbancos canastrões
Arlequins, servos, criados
Figuras e fanfarrões

Nobres, burgueses, patrões
Dos negócios sempre ocupados
Não têm empregos, têm filhas
De casamentos marcados

Médicos, advogados
Profissionais liberais
Na oratória têm fé
Às vezes falam demais

Diz o dito popular
Pobre carece do pão
Precisa de trabalhar
Nos mandados do patrão

Criadagem, agregados
Também são da oralidade
Resolvem tudo na fala
No gesto, na amizade

Dizem que quem passa fome
Na vida fica sabido
Pois sabe que o mais importante
É estar forte e nutrido

Casais de enamorados
São audazes e altivos
Frontes febris, acamados
De corações aflitivos

Em estado meditativo
Fica a pessoa que ama
Sente gosto em estar vivo
Na leveza se derrama

Vi dizer que à paixão
Não tem remédio que cure
O fogo da chama é forte
Eterno enquanto dure

Eu como não tenho tempo
Nem dinheiro pra perder
Onde passo, encho meu copo
E não quero nem saber

Pois bicho que pula cerca
Não se afoga em ribeirão
Sei entrar e sei sair
Não dou trabalho a patrão

Sou prima e agregada
Dessa família em apuro
Muito nobre e mal cotada
Devendo e sem pagar juros

Pela santa inquisição
Imploro ao senhor, deveras
Foi mandado do patrão
Não vá me atirar às feras!

O dinheiro é coisa boa
Compra terras, compra gado
Só não compra o amor
Do peito dos namorados

Plantado um pé de paixão
Não arranca qualquer um
Só arranca alguém bem santo
Que tenha feito jejum

Um pé de amor foi plantado
Quem teve visão regou
Mais na frente alguém colheu
E os frutos, outro comeu

Senhores da medicina
Que têm estudos demais
Não sabem as minhas sinas
As raízes dos meus ais

Hoje fui doutor aqui
E muito fácil eu achei
Da moça bebi o xixi
E paga em dobro ganhei

No peito dos namorados
Paixão é patologia
E a cura da medicina
É um balde de água fria

Adeus até outro dia
Vamos daqui pra outras prendas
Outras praças e teatros
Cantar mais farsas e lendas.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

I^I


brasilia-centro
lugar-não, lugar
invento de viagem
ânsia de liberdade

pedro, és pedra
e de ti construo minha igreja

palavra pingando pulo de pulso
de paulo...

pulsou psicomágica
palavra pontiaguda
pela estrada fora
peleja

sábado, 9 de junho de 2012